Babel

Babel
Quadro de Marcelo Souza sobre o poema "Tentativa de poesia moderna nº 7"

6.2.12

Max, o cronista



Foi a única forma de sobreviver. Em 40 anos, nós nunca saímos juntos e sempre combinamos de quando um chegar, o outro ir embora. As leituras (boçais) de Guimarães, Borges, Cabral, Drummond, serviram ainda mais para me podar o espaço.

Hoje, amistosamente, saímos. Ele com a cara de poucos amigos (deve ter algum livro de marketing que explique o charme do antipático) e eu esperando ele morrer – literariamente, claro.

O bar fica perto da nossa casa (?) em Cachoeiras e se diria que o diabo, se estiver voltando, chegará por aqui. Tá um calor do cão e, enquanto penso na abstinência dele, espero que o mundo acabe rápido numa tempestade de neve.

Enfim, sabe-se lá o porquê, ele sai e vai a um botequim. Ele vai a um botequim e eu percebo uma busca desesperada por um “Jaci”, um “Mineiro”, enfim, o refúgio de um bar feio aonde um barco fraco possa encontrar a tranquilidade longe da trilha sonora da moda, longe dos últimos acontecimentos.

Ele fala pra mim (sim, ele só pode estar falando comigo), não existe mais um lugar assim, isento de novidades. E, claro, essa frase é a cara dele.

Por sorte, chegamos. Não é um bar feio, é verdade. Tem uma moleca atendendo, mas não tem ninguém e, ela, não quer ouvir outra coisa a não ser a sua televisão de sintonia defeituosa e de programação pobre. Que bom! Ele senta e pede uma cerveja. Que sorte! Não tem cerveja pequena, só litrão. A minha chegada está garantida. Em algum lugar, eu sinto, Hyde estremece.

A cerveja tá uma delícia. Eu sinto. Ela não arranha a garganta, mas arranha uma saudade (é essa palavra!). Ele bebe rápido – como quem tenta se livrar de um pecado, mas, infelizmente, quer desfrutá-lo. Eu sorrio. Tô chegando.

No balcão de atendimento, ele vê os velhos passando e contando a sua sorte. Falam de suas proezas para a moleca (experiente) inexperiente e se envergonha. A atendente não tem inteligência suficiente para entender todos os meandros, mas sabe do poder do seu “sim” e regateia no teatro. Ele abre o livro trazido de Buenos Aires.

Um carro para. Desce um homem e sua barriga. Ajuda-a. Tem lá seus 45 anos. A filha pula com três e, no colo da mãe, de 25, Lyon, de menos de um ano. A sogra sai pela porta do carona, da frente. Tem 50, talvez. Estão felizes.

Ele me olha. Juro que o Máximo me olha e termina o livro de Aguinis. É um bom texto. Talvez agrade aos alunos.

O simpático companheiro chama-se Bruce, a filha Ryane. A sogra, Sandra, me cumprimenta. O homem fala do calor (realmente tá um calor do avesso). Fala que veio da serra. Pede uma cerveja. Chama a sogra.

Sandra vem pra cá. Do lado da filha, diríamos que o mundo acabou ou inventou um milagre. Máximo é escroto e não é capaz de ver a festa da família.

Passa um carro. Eles param. É o marido de sua ex-mulher. Do carro, descem duas pequenas. Ariadne, simpática e obediente, e Ariana, mais avessa, ainda que não desrespeitosa.

Tudo funciona bem. O padrasto das meninas desce. Falam de uma festa e de um coleiro. Tá tudo certo, mas o Máximo tem os maus olhos. Tá vendo tudo transverso.

As meninas vão embora. Só Ryane se esconde dentro do carro, com ciúmes, e um tanto antiquada. A mãe permanece an passant enquanto segue um nova tradição – bem velha. A sogra é mais interessante, tem algo a dizer.

Somente a pequena Ryane, enciumada – mas uma ducha de água fria e a vontade de mijar acalmarão esses intempestades –, e o Máximo parecem alheios ao progresso.

Quando Bruce fala das coisas como um menino, eu vejo um mundo perfeito.

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A imagem foi retirada do belo blog http://paginassoltas-galeria.blogspot.com/

22.1.12

Crongressos de lágrimas

A pretensão me faz crer que, depois de publicado "Céu baixo", livro que contou com o carinho de amigos-irmãos-pais-filhos no processo de revisão, sairá "Congresso de lágrimas", assim mesmo, com esse título apelativo, patético. Algumas de suas histórias salpicaram o "Ideias..." nesses anos e me fizeram acreditar que eram uma boa astúcia. Seguem mais três textos felizes de um possível "Congresso de lágrimas".

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História 41

Pode acontecer de um homem que, entregue ao alcoolismo, tenha entrado em uma favela, depois de esmurrar um suposto morador do local, e beba no bar do chefe do movimento. Pode acontecer desse homem agredir uma amiga – ambos bêbados – e depois ir pra casa. Também poderá beber tanto que arrombe a casa da qual se mudara uma semana antes e acorde deitado no chão. E uma ocasião ele poderá ter encantado uma mulher encantada e, momentos depois, se revelar apodrecido e perdê-la. Pode acontecer dele ofender os amigos com verdades imprestáveis e cantar músicas de revolta contra deus e contra o diabo.

Foi o que aconteceu com Dermerval Dionísio do Espírito Santo, salvo por uma faculdade – onde hoje leciona – e criador de dois filhos mais tranquilos e mais problemáticos – cada um a sua maneira, claro.

Pois, esta manhã, Dermerval, o velho, ligará para a casa de sua neta Rafaela, e, enquanto olha as fotos penduradas na parede, será informado que sua bisneta tem câncer e morrerá em três meses. Aprenderá assim a crueldade da fotografia.

Pode acontecer.




História 42

Ariana é filha de Maria Maria, que trabalha na Praça Mauá, em horário noturno e em serviço duro. A linda menina, com os olhos puxados do pai, enquanto a mãe segue a tradição, brinca de ser sua mãe com os meninos de sua idade.

Para beijar a boca é meia moeda, para tocar-lhe os seios, uma moeda inteira. Naquela época, àquela idade, a brincadeira tem limites.

Soube que todos se salvaram no final – inclusive o menino abobalhado que não tinha a moeda.


História 43

Dina tem 26 anos. Foi ela que me fez sorrir quando inverteu o agente do verbo pegar me perguntando quantos amigos meus já tinha pegado.

Tem 13 tatuagens. Um piercing na língua, um no nariz. Oito brincos. Fuma, bebe, cheira e está dentro de tudo que for novidade.

Como se soubesse de algo, lhe digo que um ser humano não pode ter todos os defeitos disponíveis no mercado.

Ela me sorri e diz que o seu nome é liberdade.

Eu também sorrio.

30.12.11

Estórias mínimas

Claudisneí Portinari Di Cavalcanti nasceu pernambucano, de Olinda, mas cresceu mesmo foi no Estácio, ali entre a Volta da Jurema e a ladeira dos Tabajaras, tomando banho no Guarujá e água de coco em Camboinhas. A mãe, Maria José de Jesus, de muita fé, colocou esse nome imponente porque acreditava que o nome da pessoa é uma espécie de profecia para o futuro. Pusera também o nome Cavalcanti porque acreditava que ter esse nome em Pernambuco dava sorte.

A superstição da mãe pegou no filho, que cresceu envolvido em todo tipo de simpatia e crendice que se possa imaginar – das oficiais às pueris. Assim, o ano novo, dependendo da situação, lá estava ele de branco, verde ou azul, em plena praia da Pipa, com um barco para Yemanjá, carregado de presentes baratos, comendo passas, ervilhas, dando três pulinhos, tomando champanhe. Logo em seguida, trocando pra uma roupa amarela, depois uma rosa e, por último, uma vermelha. Depois, sentava no meio de um círculo de velas de diversas cores e funções, e, das areias do Farol da Barra, observava a queima de fogo da ponte Hercílio Luz.

Um dia, andando pela Praça XV, ali perto da Avenida Paulista, bem em frente ao Centro Cultural Thiago de Mello, encontrou uma dessas ciganas de perfil germânico, que perambulam dentro do parque da Chapada Diamantina. A fulana, com seus olhos puxados e o cabelo baiano, gritava-lhe coisas em uma linguagem local que fez Didi pensar no Brasil todo e entender que atravessaria o mar e morreria nas águas de uma cidade que ainda é o mar.

Assustado, Claudí tentou tirar a mão agarrada das mãos longas e espanholas que sem enfeites pertenciam àquela voz de sílfide que lhe apresentava o fim. Correu então para casa na Saúde e sonhou que Édipo transava com a Cartomante de Machado de Assis, na praça central da Cidade Alta, e todos olhavam-no crucificado no plano piloto.

Ela dissera alguma coisa de longa travessia, pássaro e partida. Ele comprou a passagem em dez vezes e um dia depois estava dentro do avião que taxiava para deixar o Guarulhos.

Chegou em Veneza às 5 da manhã e teve muita dificuldade para se afogar naquelas águas calmas.

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Essa imagem foi retirada de

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Bem, cada ano é, de certa forma, uma esfinge. Boa sorte a todos nós e, tomara, feliz ano novo.

17.12.11

Xadrez




O tabuleiro é o tempo cujos limites insinuam o infinito –
O branco sugere o preto, que sugere o branco –
Sob as patas dos cavalos, sob as bênçãos do bispado,
Em guerra, dias e noites montam uma harmonia.
Um velho movimento inicia uma velha guerra e,
Sendo finito os contendores e insuportável o silêncio eterno,
É necessário que voltem ao tabuleiro,
Que, enquanto tece a lida, os despede e os aguarda.
A infantaria cairá e com ela os cavalos, a igreja. A rainha e o reino.
Em todos os lados da eternidade,
A mão esquecida que incentivou o jogo
É a mesma mão esquecida que incentivou o jogo.

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Explicações (são sempre) desnecessárias.

Evidentemente, os cultos amigos que perambulam por aqui encontrarão o revozeio* borgeano neste poema. Correndo o risco de diminuir (mais ainda) o meu texto, (não reparem na pobreza do ritmo) transcrevo os originais do poeta argentino.

Xadrez

I

Regem no seu recanto os jogadores
As lentas peças. Esse tabuleiro
Demora-os toda a noite no severo
Âmbito em que se odeiam duas cores.

Dentro irradiam mágicos rigores
As formas; torre homérica, ligeiro
Cavalo, sagaz dama, rei postreiro,
Bispo oblíquo e peões agressores.

E quando os jogadores tiverem ido,
Depois do tempo os ter já consumido,
Decerto não terá cessado o rito.

No Oriente incendiou-se esta guerra
Cujo anfiteatro é hoje toda a terra.
Como o outro, este jogo é infinito.

II

Ténue rei, sesgo bispo, encarniçada
Dama, torre directa e peão ladino
Sobre o negro e o branco do caminho
Buscam e travam a batalha armada.

Não sabem que a mão assinalada
Do jogador governa o seu destino,
Não sabem que um rigor adamantino
Lhes subjuga o arbítrio e a jornada.

Também o jogador é prisioneiro
(Frase de Omar) de um outro tabuleiro*
De negras noites e de brancos dias.

Deus move o jogador que move a peça.
Que deus atrás de Deus o ardil começa
De pó e tempo e sonho e agonias?

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Revoozeio é (claro!) um neologismo, portanto, um revoozeio das leituras de Guimarães Rosa, portanto, a continuação de um diálogo que se estende hacia o eterno, portanto, Borges.


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Foto retirada de http://blogandocelia.blogspot.com/2011_04_01_archive.html

7.12.11

Conversa de homem pra homem


Ele era um rapaz pequeno - desses que ainda choram quando o pai vai trabalhar. Acordou cedo e, enquanto eu me arrumava, ele, um toquinho, veio pro meu lado cheio de olhos marejados.

Ele era um rapaz miúdo, fácil de levar, que cabia certinho na cadeirinha dianteira da minha bicicleta. Me deu um abraço choroso que ainda hoje eu trago comigo. Pedi que sentasse. Ele puxou o banquinho e, dentro daquela casinha feia, de tijolos nus, que quando chovia, a água entrava pelo espaço entre a telha e o último tijolo, ele parecia um pedaço de salvação.

Sentei à sua frente e falei:

_Meu filho, preciso te explicar uma coisa do mundo dos homens grandes - que um dia será seu também. Papai tem que sair todos os dias pra trabalhar. Trabalhar é algo que a gente faz pra alguém muito rico e esse alguém gosta tanto que até nos dá dinheiro. Dinheiro, você sabe, né?, serve pra comprar bala, chiclete, brinquedo, bicicleta. Dá até pra comprar comida e essa cuequinha que você está usando. Enquanto eu tou lá fora trabalhando, eu preciso que você fique aqui e tome conta da casa. Preciso que ajude sua mãe. Tudo bem?

O menino, de no máximo dois aninhos, tinha bons ouvidos e um coração de ouro. Foi fácil secar suas lágrimas e encontrar sua compreensão.

Foi a nossa primeira conversa de homem pra homem e nunca mais ele chorou porque eu ia trabalhar.

Eu é que às vezes choro sempre.

28.11.11

Variações sobre um feliz aniversário




Preparo uma canção que seja como uma ponte separando dois silêncios.

Nessa canção, estamos todos e tudo.
Se o amador tiver uma alma, ele a passará à canção,
e ela a passará pelos silêncios, além da ponte,
que se estenderá depois do amador.

A canção será então tudo do amador
que seguirá pela ponte, que, em tese, não ligará mais nada,
pois, sendo o amador somente a canção,
tudo será na canção a canção, o amador, a alma, a ponte
e o silêncio.

E quando a canção estiver pronta – sendo a canção –,
será o amador tudo, menos o silêncio,
portanto, a ponte, que então ligará a ponte à ponte
eternamente.

Assim,
Eu preparo uma canção que me faça uma canção que ligue duas canções.
Em que estejamos todos e tudo.

14.11.11

Variações sobre um feliz aniversário



Que bom que choveu
- a Vida também me ensinou umas astúcias;
uma delas é me reconfortar no seu baralho de horas,
dentro do ônibus, e ter a vaidade de me sentir feliz.

A chuva quebra a agitação
- a Arte só me ensinou alguns truques, alguns bons;
um deles é me reconfortar no barulho da chuva,
e pensar em vocês e em toda essa nossa frágil força.

Ela apazigua o cansaço
- as pessoas me ensinaram algumas boas maneiras;
uma delas é a fé que possibilita ter fé
e ligar o fone de ouvido enquanto atravesso a BR.

Ela empresta uma reconciliação
- o barulho me ensinou
que eu não gosto que entre com sua própria chave;
que se sinta em casa.

Refrigério
- o outro me ensinou o meu egoísmo
e o egoísmo que eu consigo ter comigo mesmo;
quando chove é mais fácil respirar fundo.

- o Amor tentou me explicar alguma coisa,
mas eu não entendi.

- a Amizade explicou tudo.

Que bom que choveu.
Que bom que eu estou aqui. Dentro desse ônibus.
Que bom que vocês vieram.
Daqui a pouco, desceremos.

Queria dizer algo importante.