Foi a única forma de sobreviver. Em 40 anos, nós nunca
saímos juntos e sempre combinamos de quando um chegar, o outro ir embora. As
leituras (boçais) de Guimarães, Borges, Cabral, Drummond, serviram ainda mais
para me podar o espaço.
Hoje, amistosamente, saímos. Ele com a cara de poucos amigos
(deve ter algum livro de marketing que explique o charme do antipático) e eu
esperando ele morrer – literariamente, claro.
O bar fica perto da nossa casa (?) em Cachoeiras e se diria
que o diabo, se estiver voltando, chegará por aqui. Tá um calor do cão e,
enquanto penso na abstinência dele, espero que o mundo acabe rápido numa
tempestade de neve.
Enfim, sabe-se lá o porquê, ele sai e vai a um botequim. Ele
vai a um botequim e eu percebo uma busca desesperada por um “Jaci”, um
“Mineiro”, enfim, o refúgio de um bar feio aonde um barco fraco possa encontrar
a tranquilidade longe da trilha sonora da moda, longe dos últimos
acontecimentos.
Ele fala pra mim (sim, ele só pode estar falando comigo),
não existe mais um lugar assim, isento de novidades. E, claro, essa frase é a
cara dele.
Por sorte, chegamos. Não é um bar feio, é verdade. Tem uma
moleca atendendo, mas não tem ninguém e, ela, não quer ouvir outra coisa a não
ser a sua televisão de sintonia defeituosa e de programação pobre. Que bom! Ele
senta e pede uma cerveja. Que sorte! Não tem cerveja pequena, só litrão. A
minha chegada está garantida. Em algum lugar, eu sinto, Hyde estremece.
A cerveja tá uma delícia. Eu sinto. Ela não arranha a
garganta, mas arranha uma saudade (é essa palavra!). Ele bebe rápido – como
quem tenta se livrar de um pecado, mas, infelizmente, quer desfrutá-lo. Eu
sorrio. Tô chegando.
No balcão de atendimento, ele vê os velhos passando e
contando a sua sorte. Falam de suas proezas para a moleca (experiente)
inexperiente e se envergonha. A atendente não tem inteligência suficiente para
entender todos os meandros, mas sabe do poder do seu “sim” e regateia no
teatro. Ele abre o livro trazido de Buenos Aires.
Um carro para. Desce um homem e sua barriga. Ajuda-a. Tem lá
seus 45 anos. A filha pula com três e, no colo da mãe, de 25, Lyon, de menos de
um ano. A sogra sai pela porta do carona, da frente. Tem 50, talvez. Estão
felizes.
Ele me olha. Juro que o Máximo me olha e termina o livro de
Aguinis. É um bom texto. Talvez agrade aos alunos.
O simpático companheiro chama-se Bruce, a filha Ryane. A
sogra, Sandra, me cumprimenta. O homem fala do calor (realmente tá um calor do avesso).
Fala que veio da serra. Pede uma cerveja. Chama a sogra.
Sandra vem pra cá. Do lado da filha, diríamos que o mundo acabou
ou inventou um milagre. Máximo é escroto e não é capaz de ver a festa da
família.
Passa um carro. Eles param. É o marido de sua ex-mulher. Do
carro, descem duas pequenas. Ariadne, simpática e obediente, e Ariana, mais
avessa, ainda que não desrespeitosa.
Tudo funciona bem. O padrasto das meninas desce. Falam de
uma festa e de um coleiro. Tá tudo certo, mas o Máximo tem os maus olhos. Tá
vendo tudo transverso.
As meninas vão embora. Só Ryane se esconde dentro do carro,
com ciúmes, e um tanto antiquada. A mãe permanece an passant enquanto segue um nova tradição – bem velha. A sogra é mais interessante, tem algo a dizer.
Somente a pequena Ryane, enciumada – mas uma ducha de água
fria e a vontade de mijar acalmarão esses intempestades –, e o Máximo parecem
alheios ao progresso.
Quando Bruce fala das coisas como um menino, eu vejo um
mundo perfeito.
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A imagem foi retirada do belo blog http://paginassoltas-galeria.blogspot.com/





